O retorno ao fim da linha
Quem o visse o ônibus que serpenteava na rodovia balançando como se saltasse ondas, se já tivesse visto um barco antes, lembraria de um a singrar uma baía.
E do veículo balançando na estrada, era exatamente tal coisa que pensava um dos passageiros que está ansioso pela proximidade do fim da viagem. Um leve sorriso escapa de sua fisionomia quando ele percebe que seu destino está próximo.
A viagem tinha sido longa. Mas muito mais longo foi o tempo que ele levou para se decidir a faze-la...
Já fazia muito tempo perdera a paciência com alguns outros passageiros que o incomodavam durante o trajeto. Alguns deles tinham desembarcado, ele era, por sinal, um dos poucos que iriam até o fim da linha...
Enquanto a viagem não termina a vida prossegue sobre as rodas do veículo de transporte. Uma criança impaciente torna a perguntar à mãe quando vão chegar. Ela responde, também impaciente, que já estão muito próximos.
Um bêbado inquieto perturba outra senhora, que decide se mudar de poltrona ao notar que o ônibus está praticamente vazio. O sujeito indiscreto fica falando sozinho e não demora, pega no sono.
Alguns instantes depois, o veículo trafegava sobre o sítio urbano de Campo Mourão. Mais um tempo e o motorista manobra graciosamente e estaciona o ônibus numa das plataformas da estação rodoviária.
Todos os passageiros descem apressadamente com exceção de um deles. Ele parecia hesitar em desembarcar. O condutor, ao notar isto, gritou-lhe:
-- Ei companheiro, chegamos ao ponto final!
O rapaz deixou a impressão de estar amedrontado. Parecia que iria pedir socorro. Contudo, levantou-se repentinamente e seguiu para a porta.
Ao chegar na escada do veículo, olhou para o motorista.
-- Obrigado! -- Exclamou.
-- Não tem de quê! -- Respondeu o outro, perguntando em seguida – foi boa a viagem?
-- Acredito que sim, nós chegamos ao destino não é? -- Devolveu o outro.
Os dois permaneceram se olhando por uma fração de segundos que pareceu uma eternidade. Mas cada qual foi para o seu lado. O viajante caminhou pela rodoviária e o motorista seguiu com o ônibus para a garagem da empresa de transporte.
Bruno caminhou sem rumo pela plataforma. Depois de um certo tempo e cansado de ficar parado ali de uma forma que lhe pareceu estranha e que chamava à atenção das pessoas, resolveu cruzar a Rua Francisco Albuquerque, indo se sentar numa pracinha do outro lado. A praça que fica encostada ao muro do Colégio Santa Cruz.
Sentado num dos bancos, admirava as grandes árvores que a circundavam. Ele sempre gostara delas, porque eram nativas, não se lembrava mais a qual espécie pertenciam, forçando um pouco a memória, lembrou: eram copaíbas! Mas gostava delas de qualquer jeito, pois ao olhar para as mesmas, tinha a impressão de estar numa pequena floresta. Chamava-lhe à atenção também, o fato de serem todas de uma mesma espécie.
Depois de um certo tempo ali, se cansou e lembrou da praça do outro lado da rodoviária. Forçou um pouco a memória e conseguiu se lembrar o nome dela, era a Praça Getúlio Vargas. Era a maior praça da cidade. Levantou-se então e ia cruzando a rua naquela direção, quando deu por falta de alguma coisa. De imediato lembrou que esquecera sua pequena bagagem, que não passava de uma pequena mochila contendo apenas duas trocas de roupas, tendo em vista que ele planejara ficar muito pouco em Campo Mourão. Apanhou a mochila e tornou a sentar no banco da praça. Depois de refletir alguns instantes, levantou-se e cruzou a rua rapidamente. Passou pela rodoviária e em poucos segundos já estava na outra praça. Dirigiu-se de imediato para o coreto. Ao ver aquela construção em meio à praça, surpreendeu-se, pois acreditava que aquele tipo de coisa quase não existia mais nos fins da década de 80. Mas lá estava o pequeno coreto, dando mostras de estar praticamente abandonado.
Bruno lembrou que quando era menino, seu pai o trazia àquele lugar para ouvirem a banda municipal tocar nas tardes de domingo. Na verdade, ele se lembra de ter vindo ali apenas umas duas vezes, mas como ele sempre ouvia as pessoas falando da banda que tocava no coreto da praça, aquilo estava entranhado nele como se ele fosse um freqüentador assíduo dos concertos da banda. Por ele, viria mais vezes vê-la tocar, acontece, que logo este programa que era oferecido aos cidadãos mourãoenses deixou de existir, assim como muitas coisas naquela praça.
Olhou mais para a direita, lá estava o velho chafariz abandonado. De imediato, lembrou que ele fora uma atração e tanto para as crianças, lembrou dos peixes que nadavam no tanque que o cercava... Contudo, agora estava tudo seco. E aquela aridez parecia sugerir-lhe algo familiar, algo de si mesmo era como a sua história, que outrora fora tão feliz e cheia bons auspícios e que, repentinamente, num piscar de olhos cessou. Tentou esquecer de si mesmo olhando mais à frente na direção da catedral e notou que havia mais uma diferença; quando ele vivia na cidade, havia uma rua que cruzava na frente da igreja, era a rua Brasil, que fora interrompida e transformada em calçada. Ele não entendeu o porquê daquilo, mas tentou não se importar também.
As coisas sempre mudam, pensou. E pensando nisso, examinou com mais atenção a construção do coreto, que na verdade, não dava mostras de estar abandonada, apesar de ser nítida a sua idade e má conservação. Ele parecia estar ali como uma última sentinela a vigiar e resistir às mudanças do progresso. Num canto, se é que se pode dizer que uma construção redonda tem canto, ele viu um pequeno amontado de lixo, onde vislumbrou enojado um preservativo usado. Sempre se achava uma utilidade para as coisas que pareciam abandonadas (pensou ironicamentente) e aquela mureta devia dar muita segurança para quem não podia ou não queria pagar um motel. Mesmo porque, Campo Mourão só tinha um motel e ficava na saída para Maringá, se não lhe falhava a memória...
Encostou-se, depositou sua bagagem sobre a mureta e abriu o zíper da mochila novamente, tateou dentro dela e retirou cuidadosamente uma arma, uma pistola. Com rapidez, colocou-a na cintura. Em seguida, acariciou-a novamente e se lembrou, que uma vez, esteve prestes a usá-la e não teve coragem. Novamente aquela possibilidade o assaltava. Ele estremeceu ao sentir tudo aquilo de novo. E um filme se descortinou novamente à sua frente...
Lembrou-se do dia em que conhecera a sua futura mulher. Aconteceu num dia festivo no pátio da única faculdade de Campo Mourão, onde jovens se davam a cumprimentar os amigos alegremente pela conquista de estarem entrando na universidade. A primeira vez que viu Alice, ela estava trocando beijos de cumprimento com alguns colegas. Não demorou, e logo eram os dois que repetiam este ritual. E Bruno ficou muito impressionado por aquela garota.
Quatro anos depois um outro ritual de beijos e cumprimentos se repetia na igreja da Vila Urupês. Bruno estava duplamente feliz, pois casara no dia do seu vigésimo terceiro aniversário. Entretanto, naquela época ele já se revelava uma pessoa muito ciumenta apesar de tal fato não o preocupar. E por outro lado, Alice nunca deu a ele qualquer motivo que o levasse a ter este sentimento acentuado. Mas ele, inexplicavelmente em meio à sua felicidade, estava sempre em guarda, como se à qualquer momento algo fosse surgir para roubar-lhe a felicidade. Muitas vezes, chegou a admitir intimamente que havia algo de errado consigo mesmo, que precisava procurar ajuda de alguém, mas nunca teve coragem de se abrir com ninguém e continuou vivendo como se nada acontecesse.
Depois de quatro anos de casamento, quando ele estava prestes a desistir de pensar tais bobagens, as coisas começaram a se modificar. Começou a notar uma mudança no comportamento da mulher. Tudo aconteceu muito rápido, em apenas um mês as coisas se precipitaram num abismo intransponível... e ambos foram atirados nas suas profundezas... ou teria sido ele a saltar, arrastando-a? Essa pergunta ele não ousava se fazer, apesar de a mesma sempre sussurrar-lhe...
De fato, Alice começou a levantar furtivamente da cama durante a noite para dar telefonemas às escondidas. Na primeira vez, Bruno não se importou, achando que era problema de mulher e que ela devia estar falando com a mãe. Contudo, isto foi se repetindo e ele passou a vigiá-la. Depois vieram as viagens para Maringá...
Ele estava acostumado com uma ou duas viagens a cada seis meses mais ou menos, pois ela tinha naquela cidade uma tia de quem gostava muito. Mas naqueles últimos dias, ela fez pelo menos umas três viagens. Bruno tinha certeza que havia algo de errado e que tinha a ver com a “cidade canção”. Numa noite, ela lhe disse que iria novamente para lá na manhã seguinte. Ele concordou sem pestanejar. Mas tinha planos de segui-la.
Na manhã seguinte, levou-a ao amanhecer até a estação rodoviária. E ficou com ela até que a mesma entrasse no ônibus. Ela estranhou, pois ele não fazia isso a muito tempo.
Assim que o veículo partiu, ele foi atrás. Muitas vezes teve que diminuir a velocidade do automóvel para não ultrapassar o ônibus.
Mais ou menos uma hora e meia depois chegavam à Maringá. Bruno aproximou-se cuidadosamente da rodoviária, tomando o cuidado de estacionar o automóvel do lado oposto ao da plataforma de desembarque. Desceu e se dirigiu para a rodoviária ofegante, excitadíssimo. Escondendo-se cuidadosamente, viu quando o veículo estacionou na plataforma e viu quando a mulher desceu e viu também quando um jovem cabeludo, que trajava roupas de couro abraçou-a e beijou-a no rosto carinhosamente. Estava com os nervos em frangalhos, as pernas não conseguia controlar. Mas recuperou-se quando viu que os dois tomavam um táxi. Assim que eles saíram, foi ao encalço dos dois, tomando outro táxi e seguindo-os.
O casal chegou a uma casa no Jardim Alvorada. Bruno viu quando os dois desceram e de braços dados caminharam para dentro. O táxi estacionou e ali permaneceu por um longo tempo, mas Bruno não viu nada, pois a casa estava completamente fechada. Sem saber o que fazer, ele dispensou o taxista e permaneceu ali, aguardando e pensando em cometer uma loucura quando ela saísse. Mas as horas se passaram e nada de Alice sair. Ele tomou então uma decisão. Foi até um telefone público, chamou um táxi e partiu. Foi até uma loja de armas e comprou a pistola que acariciava enquanto rememorava toda essa história. Quando ela chegasse em casa ele a mataria, pensou.
Entretanto, enquanto viajava para casa, naqueles poucos noventa quilômetros que separam as duas cidades, ele descobriu que jamais teria coragem para fazer tal coisa, mesmo sentindo o ódio que estava sentindo. Mas aquilo não ficaria como estava, ele daria um basta em tudo...
E naquele mesmo dia arrumou suas roupas e desapareceu.
Vivia no Paraguai na casa de um tio na cidade de Naranjal, já para mais de quatro anos. No Brasil, ninguém ouvia falar mais dele, com exceção dos pais, naturalmente, a quem disse apenas que estava vivo e bem, nada além disso.
Contudo, um belo dia, ao vir até Foz do Iguaçu para buscar uns documentos para o tio, resolveu visitar as cataratas, coisa que era seu desejo à muito tempo.
Era um dia que o local estava repleto de turistas e Bruno não pode evitar um encontro indesejado com um primo de Alice que o reconheceu e o abordou. Foi uma conversa muito difícil, mas no final, o primo da moça deu-lhe um telefone, exigindo dele, que o mesmo ligasse para ela, a fim de que se esclarecessem muitas coisas.
Bruno achou que realmente poderia ser a hora de se manifestar e jogar na cara dela tudo o que sabia ou, terminar o que deveria ter feito a alguns anos atrás. Ligou no outro dia e marcaram aquele encontro, pelo qual ele agora aguardava.
De repente, ele sentiu uma presença conhecida. Levantou os olhos, lá estava Alice, exatamente como ele a deixara, não mudara nada, exceto pelo ar de tristeza e abatimento. Seu coração disparou, não conseguia nem falar. Mas ela falou:
-- Então é verdade, você finalmente apareceu!
-- É! -- Conseguiu dizer.
-- Acho melhor nós sairmos daqui, esse não é o melhor lugar para uma conversa. – Disse ela.
Ele concordou e os dois saíram rumo a Avenida Capitão Índio Bandeira. Encontraram uma lanchonete aberta e entraram. Mal sentaram, ela cobrou:
-- Você me deve muita coisa Bruno, muitas explicações!
-- Eu? Olha, nem sei por que estou aqui, pois eu fui embora exatamente para não ter que ouvir ou dar explicações, eu tinha medo de que elas me machucassem muito mais do que a dor que eu sentia ao ser traído por você. – Despejou ele.
-- Do que você está falando homem?
-- Ora vejam só, não consigo acreditar! Que tal refrescarmos sua memória, me responda o que você foi fazer em Maringá no Jardim Alvorada no dia em que eu fui embora?
-- É simples, fui até a casa de meu primo acertar umas coisas que nós tínhamos combinado por telefone anteriormente. E qual é o problema, eu sempre fui para Maringá e você nunca se importou!
-- Talvez tenha sido esse meu problema, fazer de conta que não me importava, te deixei muito solta, confiando em você. – Depois olhou-a muito irritado e completou – mas que história de primo é essa? Pelo que sei os filhos da sua tia que morava em Maringá eram crianças naquela época e moravam no centro, não naquele bairro.
-- Sua memória está muito curta Bruno, não se lembrou que eu sempre lhe falava de um primo que tocava numa banda, que você não chegou a conhecer porque ele viajava muito para fazer shows pelo Brasil, pois é, eu fui ver este primo aquele dia. E sabe para que?
-- Não, não faço a mínima idéia. – respondeu ele, já perturbado.
-- Naquele dia, eu fui combinar com ele os últimos detalhes para a festa do nosso aniversário de casamento, que também por sinal era seu aniversário. Ele viria tocar com sua banda, só isso... e com os olhos entre as mãos, cheios de lágrimas, soluçou – e você, o que tem a me dizer?
Como não houve resposta, após alguns segundos ela abriu os olhos e olhou para ele, que estava deitado na mesa com as mãos na cabeça, como se tivesse uma dor horrível. Era terrível dor de cabeça, dessas que não se curam jamais, dessas que só a morte o libertaria...
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Primeira poesia do blogg
Traços em passos
A Linha, os traços, os passos
faço traços na Linha
com incertos passos,
alguns tropicaços, muitos perpassos.
Passos, são traços.
Sugerem a desejável Linha!
A Linha, essa o é, sem passos...
passo a passo me equilibram
o passar urgente pela Linha
compulsivo errador, hei de traçar...
traçar passos errantes
passar desejáveis traços retos
Marcas da Linha ficarão,
E a Linha passará
quer com traços ou passos
desta página,
para outra melhor.
A Linha, os traços, os passos
faço traços na Linha
com incertos passos,
alguns tropicaços, muitos perpassos.
Passos, são traços.
Sugerem a desejável Linha!
A Linha, essa o é, sem passos...
passo a passo me equilibram
o passar urgente pela Linha
compulsivo errador, hei de traçar...
traçar passos errantes
passar desejáveis traços retos
Marcas da Linha ficarão,
E a Linha passará
quer com traços ou passos
desta página,
para outra melhor.
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