A fonte da floresta de alecrins
(Parte do romance Epifania de Pedro Silva, publicado em 2015)
Dentre as amizades sólidas que construiu, dentre aquelas pessoas que o admiravam de verdade, estava Ester. Ela fora colega de classe desde o ensino primário até o segundo grau. Havia se transformado numa moça muito bonita e cheia de atrativos físicos. Por causa dela, Pedro enfrentou muitos problemas com os outros rapazes, pois todos o invejavam assim que perceberam que a jovem preferia estar com ele. Este, nutria pela moça uma paixão muito forte, desde a adolescência. Mas nunca revelou a ninguém. Sabia que logo, não poderia mais ter a desculpa das aulas para poder vê-la, sabia que estava próximo o momento em que teria que revelar a ela o que sentia, pois não gostava de subterfúgios para chegar a determinado objetivo. Diria a ela que se sentia bem perto dela, se ela não se importava de conversar com o mesmo, algumas vezes ao menos, depois que terminassem o colegial... Era para isso que ele se preparava. Apesar de não sentir medo, sabia também que a partir desse momento, estaria criando mais um problema para si. E nestes momentos de reflexão, ele se questionava se realmente não era uma pessoa estranha. Por que tudo com ele era tão mais difícil? Parecia que o mundo fora criado para contrariá-lo. Ou seria ele que nascera para contrariar a estúpida lógica do mundo? Ele tentava racionalizar, pois não se fazia de vítima, mas antes, procurava analisar com justiça todos os fatos da sua vida para não se tornar aquele ser errado que culpa o mundo pelos seus próprios erros. Depois de muito refletir, ele chegou à conclusão de que não era assim...
As famílias dos dois também eram muito amigas. E eis que num belo almoço de domingo, a mãe de Ester faz a seguinte proposta para a mãe de Pedro:
- Eu ficaria muito contente, se seu filho pudesse estudar com a Ester. Eu sei que, apesar das bobagens que todos falam dele, ele é o rapaz mais inteligente do colégio. Soube também, que ele é muito bom para ensinar e dessa forma, os dois se ajudam e quem sabe não tornam mais fácil o caminho para a faculdade. O que a senhora acha?
- Eu acho uma boa idéia, desde que isso não seja problema para a senhora. Como bem disse a senhora, meu filho é um pouco diferente dos outros, mas parece que é boa pessoa, não sei, mãe é suspeita para falar... E os outros ficam o tempo todo me dizendo que ele precisa de um médico. Eu tenho para comigo que ele não precisa de nada disso, apenas quer viver sem ser incomodado por coisas inúteis. Assim eu acho que ele é! Respondeu a mãe de Pedro.
- De nossa parte não há problema nenhum! E depois para evitar falatórios, sempre vai ter alguém da família junto com eles, ou eu ou uma das irmãs mais novas. Disse a mãe de Ester.
Dessa forma, as mães dos dois decidiram que ambos estudariam todos os dias para os exames da faculdade.
Os dois gostaram muito. Reuniram todo o material didático que possuíam e começaram a estudar. Faziam isso todas as tardes na casa da moça, religiosamente. E nos planos do rapaz estava o de dizer para ela sobre os seus sentimentos antes que deixassem de estudarem juntos.
Nas primeiras semanas, o estudo de ambos era produtivo, pois eram dedicados e tinham objetivos a cumprir. Contudo, para ele, ao estar tão próximo de Ester, ao conhecê-la na intimidade do lar, deu-lhe uma certeza cristalina de que amava a jovem. Primeiro, a troca de olhares. Ah, aqueles olhos que pareciam guardar atrás de si, inexplicavelmente toda a uma espécie de felicidade sem sentido, repentina. Ele a viu crescer, pois a conhecera no primeiro ano do primário. Ela fora a única menina que conversara com ele na infância, parecia que o entendia. Mas de repente, aquela moleca a quem ele tinha muita afeição começa a se transformar: os cabelos crescidos, os seios de mulher, as pernas lisas e bem torneadas... Porém, ela era sua amiga e ele lhe devia respeito. Estudaram sempre no mesmo colégio depois do primário, mas em salas diferentes. Foi no segundo grau que voltaram a freqüentar a mesma sala. E desta feita tudo estava diferente ela parecia tratá-lo de maneira especial. Mas ele fugia. Aquilo incomodava os outros rapazes que o acusavam de algo que ele não sabia o que era.
E o tempo que passou, que parecia querer tirá-la de perto dele, ironicamente, quando mais acreditava que se separariam, os aproximou. Contudo, era aquela proximidade distante, infinita. O mais perto dela que conseguia chegar, era abraçando aquele olhar que parecia querer dizer que o mundo daquela alma que detrás deles estava era dele. Mas ele sabia que detrás dos olhos, não se vê, nem a vida que se viveu, nem o que se esconde, nem o que se deseja... Os olhos de Ester. Mas, os olhos dela pareciam dizer, principalmente quando não estavam sobre a censura da mãe, que a alma que os revelava queria estar com ele...
Ela por sua vez, dentro das medidas da época, respeitando as convenções proibitivas sempre que podia, demonstrava alegria em estar com ele...
Numa tarde de verão. Pedro chegara para os estudos diários com Ester. Assim que foi convidado a entrar, a mãe da moça avisou-o:
- Fique à vontade meu rapaz. Não repare que eu tenho que ir até o colégio da Edna, lá vai ter uma espécie de formatura do primário dela. Vocês se comportem, deixem as portas abertas e estudem bastante. Assim que puder eu volto. – E ainda ao portão, gritou novamente – eu pedi para dona Jorgina ficar de olho em vocês, olhem lá!
Ester estava sentada no sofá da pequena sala. Ao vê-la sorrindo, demonstrando um certo ar de satisfação diferente de todos os outros dias, aliado ao fato de saber que estavam sozinhos, causou em Pedro uma sensação ancestral de sede, uma sede infinita por algo que ele nunca bebera. Ela o convidou para irem até a mesa. Lá, ela apanhou os livros e anotações, mas seu olhar e seu coração também não queriam estudar. Disse para o rapaz:
- Faz tempo que eu quero uma oportunidade dessas para poder conversar mais à vontade com você!
- Não sei se é a mesma coisa, mas eu também necessito falar contigo, algo que não tem a ver com nosso vestibular. Mas vossa mãe ou sua irmã estão sempre ao nosso lado e penso que se eu tentasse falar geraria um problema para você. Você me conhece, eu sou mestre em fabricar problemas onde eles não existem. Tudo o que eu toco vira problema. Desabafou Pedro com ironia.
- Nossa, está aí um defeito seu que eu imaginava que você tivesse! Nunca pensei que você fosse complexado. Uma das coisas que eu mais admiro em você é o fato de parecer que não está se importando para o que os outros dizem ou pensam. Respondeu ela.
- Mas você não se enganou. Realmente eu não me incomodo muito com o que as pessoas dizem ou pensam. Para mim, o que realmente importa é minha consciência. Porém, isso não significa que eu não esteja ciente do fato disso tudo gerar nas pessoas um sentimento sem explicação de ira em relação a minha pessoa ou de sempre taxarem tudo o que eu faço ou penso!
- Mas eu não quero discutir filosofia com você. – Interrompeu Ester – eu quero falar sobre nós dois, se isso não for incômodo para você. Dizia ela com os olhos fixos em nele.
- Não, não é incômodo nenhum. Muito pelo contrário! Mas não vou esperar que você diga qualquer coisa, eu quero dizer antes: eu acho que estou apaixonado por você, desde o segundo ano! Disse como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- Nossa, você não muda mesmo, disse que estava apaixonado por mim como se discutisse o Teorema de Pitágoras, tão friamente! Respondeu ela.
- Eu sinto muito, se ainda não aprendi demonstrar o que sinto com gestos e palavras. Mas eu posso te assegurar, que se fosse fazê-lo de acordo com o que meu coração sente, não haveria dicionários no mundo para eu poder dizer o que sinto. Disse ele rindo.
- Que lindo! -- Exclamou ela – já está muito melhor agora. E com o tempo eu vou te ensinar como se faz essas coisas.
Em seguida ela se levantou, foi até ele e disse:
- Pedro, eu amo você desde aquele dia em que passou a noite aqui por causa da surra que te deram!
Ele se lembrou vagamente de uma surra que levara e pela qual teve que passar a noite ali, quando ainda era um menino... Mas ele não teve muito tempo para lembranças, pois ela o beijou... um beijo quente como a surpresa que despertou nele. Depois se afastou, demonstrando medo, foi até a sala. Pedro a acompanhou. Ela falou de cabeça baixa:
- Eu sonhei tanto com esse momento e agora, acho que estraguei tudo e...
- Estragou tudo por que, o beijo não foi como você esperava e por isso está infeliz, é isso? Interrompeu ele.
- Não, não é isso! Eu não sei explicar, mas para ser sincera, foi muito diferente do que eu imaginei, mas foi muito bom. Por favor, me entenda! Suplicou ela.
- Não se preocupe com isso. Nós vamos ter muito mais com o que nos preocuparmos quando nossas famílias souberem disso! Vão dizer que eu não sirvo prá você, etc, etc. Mas eu não costumo sofrer por antecipação, aliás, eu não gosto de sofrer nem depois das coisas ruins. Revelou.
- É disso que eu gosto em você! Você parece que sabe que amanhã será um dia melhor, seu otimismo é invejável. Eu gostaria de ser assim.
- Não se preocupe, eu prometo que vou te ensinar a querer ser feliz!
Nesse instante, uma mulher chamou a porta. Era dona Jorgina, a vizinha. Os dois pensaram que ela tivesse vindo para vigiá-los. Porém, ela os surpreendeu:
- Ester, eu acabei de receber um recado e tenho de ir até o centro da cidade. Vocês podem olhar a casa para mim enquanto eu estiver fora?
- Podemos! Respondeu Ester.
A mulher saiu e os dois ficaram se olhando. Havia um desejo muito forte de proximidade que era latente. Mas as regras estavam lá, vigilantes e impassíveis. Ela sugeriu que voltassem a estudar. Voltaram. Contudo não estudaram uma palavra que fosse, ela segurou as mãos de Pedro e eles ficaram por um longo tempo sentindo-se sobre a divisa segura da mesa.
De repente, começou a ventar. O céu escureceu em poucos minutos. Parecia que anoitecera horas mais cedo. As luzes da rua chegaram a acender automaticamente, mas por pouco tempo, pois a tempestade que se aproximava logo causou queda na energia elétrica.
Raios, trovões e o barulho da água batendo furiosamente na casa, ditavam o ritmo e as cores da tempestade que vinha...
Ester, amedrontada, pediu que ele fechasse as portas e janelas. Ele correu a fazer. O vento chicoteava as paredes da casa de madeira. A cada trovão, Ester se desesperava, ela tinha trauma de tempestades, confessou para o rapaz. Este se aproximou e abraçando-a, consumou tudo aquilo que estiveram evitando até aquele momento. A tempestade não cedia. Contudo, pararam os raios e seus estrondos terríveis.
Mesmo tendo cessado os trovões, Ester não deixou que Pedro se afastasse dela. Permaneceram se aquecendo naquele ardor delicioso. Finalmente, não havia mais medo na jovem, apenas desejo, desejo de estar junto ao seu amor. Instintivamente, buscou os lábios dele...
Pedro se viu repentinamente numa linda floresta. Era uma floresta deliciosamente enfeitada pelos perfumes de uma primavera que seus olhos jamais viram antes. E que jamais veriam novamente durante toda a sua vida. A vibração maravilhosa de um concerto indescritível de aves e pássaros inundava seus ouvidos de prazer. Começou a sentir um calor indefinível, que ao mesmo tempo que ardia, parecia sugerir que sufocaria a si mesmo, pois era uma calor completamente diverso daqueles calores que o machucaram anteriormente no distante passado. Ah, o passado. Pedro parecia ser um ente atemporal, estava nascendo naquele momento e tinha impressão de que sua vida convergia para algo maior que ele mesmo... A sede, a sede era diferente, era uma sede a sugerir um sabor delicioso de um fruto incerto que teria a doçura de todos os frutos. Caminhou em direção daquele abismo irreversível, como aço imantado por um magneto imenso. Não queria voltar, queria ir até a nascente daquela fonte cristalina. Caminhou por uma relva aveludada e fresca ao som inefável de um riacho, que mesmo distante e oculto pela vegetação se anunciava ter sabor de mel... Continuou a procurar aquele som divino. A sede que prometia beber-se a si mesma aumentava e quanto mais aumentava, mais ele a queria sentir. Estava sob um bosque de alecrins do mato, pisando as grimpas espessas que pareciam um tapete fofo da pele de um animal vivo, que aceitava o pisar como uma carícia...
Ester estava guardando a margem do riacho. Era a ninfa protetora das maravilhas daquela floresta encantada com os sabores que viriam quando se provasse da fonte que prometia afogar toda a sede de Pedro... Ele se aproximou mais, ela sorria. Ele teve medo de que ela, como toda guardiã, não permitisse que se apossasse de tal néctar essencial. Mas avançou, aquela sede era mais forte que todo poder de um Hércules. Frente a frente com a musa da fonte suprema, ele percebeu, muito mais que uma guardiã, ela era uma feiticeira. Sim, uma feiticeira, que ao contrário de querer afastá-lo de lá, o atraíra até a borda encharcada daquele riacho que corria sussurrando uma canção de encantamento. Ele não a temia, não temia mais nada, fosse encantamento, feitiçaria... a sede... a promessa latente da saciedade futura que se transformaria em mais sede... acercou-se dela... Esta, lhe deu passagem, e dando-lhe as mãos mostrou qual recanto da margem seria perfeita para que ele se debruçasse sobre o leito que também chiava melodiosamente o nome de Pedro... Sobre uma diminuta planície de musgos verdejantes ele se debruçou sobre o riacho... Quanto mais bebia, mais sede. De repente, Ester não estava mais ao seu lado, ela era o riacho que o atraía mais e mais. Pedro bebia... Todo o calor do mundo passou pelas entranhas e extremidades dele. Mais, ele queria mais, atirou-se totalmente no torvelinho de doçuras, parecia que se afogaria em tanto mel e calor... Porém, a sede foi se acabando... Ele apenas queria morrer sentindo-a, mas não morreu. Então, compreendeu que a promessa da sede era verdadeira. Depois de saciada, ela se tornava maior. Pedro adormeceu... Mas o barulho da sinfonia das águas serpenteando por entre a floresta continuava. Então repentinamente, cessou aquele barulho gorjeante do rio... ao seu lado, Ester, agora apenas a mulher da sua vida, ressonava nua... ao observá-la tão generosamente a presentear seus olhos incrédulos, logo uma certeza lhe veio: não demoraria e ele se perderia de novo naquela floresta sussurante onde começava a vida...