quinta-feira, 2 de novembro de 2017

                               A vida

Mãe, avó, irmã, amante, amiga...
A vida é uma mulher carinhosa
a nos mostrar suas novidades,
quer queiramos ou não,
quer pensemos estar preparados ou não,
Ela é cruelmente dinâmica e surpreendente;
e sempre encontrará um meio
de noticiar e lembrar que é efêmera...
Mas não nos enganemos,
como toda mulher, ela apenas faz questão
de insistir no silêncio de toda epifania:
são apenas avisos e súplicas
para curti-la, enquanto nossa,

com muito mais amor!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A fonte da floresta de alecrins

A fonte da floresta de alecrins
(Parte do romance Epifania de Pedro Silva, publicado em 2015)
Dentre as amizades sólidas que construiu, dentre aquelas pessoas que o admiravam de verdade, estava Ester. Ela fora colega de classe desde o ensino primário até o segundo grau. Havia se transformado numa moça muito bonita e cheia de atrativos físicos. Por causa dela, Pedro enfrentou muitos problemas com os outros rapazes, pois todos o invejavam assim que perceberam que a jovem preferia estar com ele. Este, nutria pela moça uma paixão muito forte, desde a adolescência. Mas nunca revelou a ninguém. Sabia que logo, não poderia mais ter a desculpa das aulas para poder vê-la, sabia que estava próximo o momento em que teria que revelar a ela o que sentia, pois não gostava de subterfúgios para chegar a determinado objetivo. Diria a ela que se sentia bem perto dela, se ela não se importava de conversar com o mesmo, algumas vezes ao menos, depois que terminassem o colegial... Era para isso que ele se preparava. Apesar de não sentir medo, sabia também que a partir desse momento, estaria criando mais um problema para si. E nestes momentos de reflexão, ele se questionava se realmente não era uma pessoa estranha. Por que tudo com ele era tão mais difícil? Parecia que o mundo fora criado para contrariá-lo. Ou seria ele que nascera para contrariar a estúpida lógica do mundo? Ele tentava racionalizar, pois não se fazia de vítima, mas antes, procurava analisar com justiça todos os fatos da sua vida para não se tornar aquele ser errado que culpa o mundo pelos seus próprios erros. Depois de muito refletir, ele chegou à conclusão de que não era assim...
As famílias dos dois também eram muito amigas. E eis que num belo almoço de domingo, a mãe de Ester faz a seguinte proposta para a mãe de Pedro:
- Eu ficaria muito contente, se seu filho pudesse estudar com a Ester. Eu sei que, apesar das bobagens que todos falam dele, ele é o rapaz mais inteligente do colégio. Soube também, que ele é muito bom para ensinar e dessa forma, os dois se ajudam e quem sabe não tornam mais fácil o caminho para a faculdade. O que a senhora acha?
- Eu acho uma boa idéia, desde que isso não seja problema para a senhora. Como bem disse a senhora, meu filho é um pouco diferente dos outros, mas parece que é boa pessoa, não sei, mãe é suspeita para falar... E os outros ficam o tempo todo me dizendo que ele precisa de um médico. Eu tenho para comigo que ele não precisa de nada disso, apenas quer viver sem ser incomodado por coisas inúteis. Assim eu acho que ele é! Respondeu a mãe de Pedro.
- De nossa parte não há problema nenhum! E depois para evitar falatórios, sempre vai ter alguém da família junto com eles, ou eu ou uma das irmãs mais novas. Disse a mãe de Ester.
Dessa forma, as mães dos dois decidiram que ambos estudariam todos os dias para os exames da faculdade.
Os dois gostaram muito. Reuniram todo o material didático que possuíam e começaram a estudar. Faziam isso todas as tardes na casa da moça, religiosamente. E nos planos do rapaz estava o de dizer para ela sobre os seus sentimentos antes que deixassem de estudarem juntos.
Nas primeiras semanas, o estudo de ambos era produtivo, pois eram dedicados e tinham objetivos a cumprir. Contudo, para ele, ao estar tão próximo de Ester, ao conhecê-la na intimidade do lar, deu-lhe uma certeza cristalina de que amava a jovem. Primeiro, a troca de olhares. Ah, aqueles olhos que pareciam guardar atrás de si, inexplicavelmente toda a uma espécie de felicidade sem sentido, repentina. Ele a viu crescer, pois a conhecera no primeiro ano do primário. Ela fora a única menina que conversara com ele na infância, parecia que o entendia. Mas de repente, aquela moleca a quem ele tinha muita afeição começa a se transformar: os cabelos crescidos, os seios de mulher, as pernas lisas e bem torneadas... Porém, ela era sua amiga e ele lhe devia respeito. Estudaram sempre no mesmo colégio depois do primário, mas em salas diferentes. Foi no segundo grau que voltaram a freqüentar a mesma sala. E desta feita tudo estava diferente ela parecia tratá-lo de maneira especial. Mas ele fugia. Aquilo incomodava os outros rapazes que o acusavam de algo que ele não sabia o que era.
E o tempo que passou, que parecia querer tirá-la de perto dele, ironicamente, quando mais acreditava que se separariam, os aproximou. Contudo, era aquela proximidade distante, infinita. O mais perto dela que conseguia chegar, era abraçando aquele olhar que parecia querer dizer que o mundo daquela alma que detrás deles estava era dele. Mas ele sabia que detrás dos olhos, não se vê, nem a vida que se viveu, nem o que se esconde, nem o que se deseja... Os olhos de Ester. Mas, os olhos dela pareciam dizer, principalmente quando não estavam sobre a censura da mãe, que a alma que os revelava queria estar com ele...
Ela por sua vez, dentro das medidas da época, respeitando as convenções proibitivas sempre que podia, demonstrava alegria em estar com ele...
Numa tarde de verão. Pedro chegara para os estudos diários com Ester. Assim que foi convidado a entrar, a mãe da moça avisou-o:
- Fique à vontade meu rapaz. Não repare que eu tenho que ir até o colégio da Edna, lá vai ter uma espécie de formatura do primário dela. Vocês se comportem, deixem as portas abertas e estudem bastante. Assim que puder eu volto. – E ainda ao portão, gritou novamente – eu pedi para dona Jorgina ficar de olho em vocês, olhem lá!
Ester estava sentada no sofá da pequena sala. Ao vê-la sorrindo, demonstrando um certo ar de satisfação diferente de todos os outros dias, aliado ao fato de saber que estavam sozinhos, causou em Pedro uma sensação ancestral de sede, uma sede infinita por algo que ele nunca bebera. Ela o convidou para irem até a mesa. Lá, ela apanhou os livros e anotações, mas seu olhar e seu coração também não queriam estudar. Disse para o rapaz:
- Faz tempo que eu quero uma oportunidade dessas para poder conversar mais à vontade com você!
- Não sei se é a mesma coisa, mas eu também necessito falar contigo, algo que não tem a ver com nosso vestibular. Mas vossa mãe ou sua irmã estão sempre ao nosso lado e penso que se eu tentasse falar geraria um problema para você. Você me conhece, eu sou mestre em fabricar problemas onde eles não existem. Tudo o que eu toco vira problema. Desabafou Pedro com ironia.
- Nossa, está aí um defeito seu que eu imaginava que você tivesse! Nunca pensei que você fosse complexado. Uma das coisas que eu mais admiro em você é o fato de parecer que não está se importando para o que os outros dizem ou pensam. Respondeu ela.
- Mas você não se enganou. Realmente eu não me incomodo muito com o que as pessoas dizem ou pensam. Para mim, o que realmente importa é minha consciência. Porém, isso não significa que eu não esteja ciente do fato disso tudo gerar nas pessoas um sentimento sem explicação de ira em relação a minha pessoa ou de sempre taxarem tudo o que eu faço ou penso!
- Mas eu não quero discutir filosofia com você. – Interrompeu Ester – eu quero falar sobre nós dois, se isso não for incômodo para você. Dizia ela com os olhos fixos em nele.
- Não, não é incômodo nenhum. Muito pelo contrário! Mas não vou esperar que você diga qualquer coisa, eu quero dizer antes: eu acho que estou apaixonado por você, desde o segundo ano! Disse como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- Nossa, você não muda mesmo, disse que estava apaixonado por mim como se discutisse o Teorema de Pitágoras, tão friamente! Respondeu ela.
- Eu sinto muito, se ainda não aprendi demonstrar o que sinto com gestos e palavras. Mas eu posso te assegurar, que se fosse fazê-lo de acordo com o que meu coração sente, não haveria dicionários no mundo para eu poder dizer o que sinto. Disse ele rindo.
- Que lindo! -- Exclamou ela – já está muito melhor agora. E com o tempo eu vou te ensinar como se faz essas coisas.
Em seguida ela se levantou, foi até ele e disse:
- Pedro, eu amo você desde aquele dia em que passou a noite aqui por causa da surra que te deram!
Ele se lembrou vagamente de uma surra que levara e pela qual teve que passar a noite ali, quando ainda era um menino... Mas ele não teve muito tempo para lembranças, pois ela o beijou... um beijo quente como a surpresa que despertou nele. Depois se afastou, demonstrando medo, foi até a sala. Pedro a acompanhou. Ela falou de cabeça baixa:
- Eu sonhei tanto com esse momento e agora, acho que estraguei tudo e...
- Estragou tudo por que, o beijo não foi como você esperava e por isso está infeliz, é isso? Interrompeu ele.
- Não, não é isso! Eu não sei explicar, mas para ser sincera, foi muito diferente do que eu imaginei, mas foi muito bom. Por favor, me entenda! Suplicou ela.
- Não se preocupe com isso. Nós vamos ter muito mais com o que nos preocuparmos quando nossas famílias souberem disso! Vão dizer que eu não sirvo prá você, etc, etc. Mas eu não costumo sofrer por antecipação, aliás, eu não gosto de sofrer nem depois das coisas ruins. Revelou.
- É disso que eu gosto em você! Você parece que sabe que amanhã será um dia melhor, seu otimismo é invejável. Eu gostaria de ser assim.
- Não se preocupe, eu prometo que vou te ensinar a querer ser feliz!
Nesse instante, uma mulher chamou a porta. Era dona Jorgina, a vizinha. Os dois pensaram que ela tivesse vindo para vigiá-los. Porém, ela os surpreendeu:
- Ester, eu acabei de receber um recado e tenho de ir até o centro da cidade. Vocês podem olhar a casa para mim enquanto eu estiver fora?
- Podemos! Respondeu Ester.
A mulher saiu e os dois ficaram se olhando. Havia um desejo muito forte de proximidade que era latente. Mas as regras estavam lá, vigilantes e impassíveis. Ela sugeriu que voltassem a estudar. Voltaram. Contudo não estudaram uma palavra que fosse, ela segurou as mãos de Pedro e eles ficaram por um longo tempo sentindo-se sobre a divisa segura da mesa.
De repente, começou a ventar. O céu escureceu em poucos minutos. Parecia que anoitecera horas mais cedo. As luzes da rua chegaram a acender automaticamente, mas por pouco tempo, pois a tempestade que se aproximava logo causou queda na energia elétrica.
Raios, trovões e o barulho da água batendo furiosamente na casa, ditavam o ritmo e as cores da tempestade que vinha...
Ester, amedrontada, pediu que ele fechasse as portas e janelas. Ele correu a fazer. O vento chicoteava as paredes da casa de madeira. A cada trovão, Ester se desesperava, ela tinha trauma de tempestades, confessou para o rapaz. Este se aproximou e abraçando-a, consumou tudo aquilo que estiveram evitando até aquele momento. A tempestade não cedia. Contudo, pararam os raios e seus estrondos terríveis.
Mesmo tendo cessado os trovões, Ester não deixou que Pedro se afastasse dela. Permaneceram se aquecendo naquele ardor delicioso. Finalmente, não havia mais medo na jovem, apenas desejo, desejo de estar junto ao seu amor. Instintivamente, buscou os lábios dele...
Pedro se viu repentinamente numa linda floresta. Era uma floresta deliciosamente enfeitada pelos perfumes de uma primavera que seus olhos jamais viram antes. E que jamais veriam novamente durante toda a sua vida. A vibração maravilhosa de um concerto indescritível de aves e pássaros inundava seus ouvidos de prazer. Começou a sentir um calor indefinível, que ao mesmo tempo que ardia, parecia sugerir que sufocaria a si mesmo, pois era uma calor completamente diverso daqueles calores que o machucaram anteriormente no distante passado. Ah, o passado. Pedro parecia ser um ente atemporal, estava nascendo naquele momento e tinha impressão de que sua vida convergia para algo maior que ele mesmo... A sede, a sede era diferente, era uma sede a sugerir um sabor delicioso de um fruto incerto que teria a doçura de todos os frutos. Caminhou em direção daquele abismo irreversível, como aço imantado por um magneto imenso. Não queria voltar, queria ir até a nascente daquela fonte cristalina. Caminhou por uma relva aveludada e fresca ao som inefável de um riacho, que mesmo distante e oculto pela vegetação se anunciava ter sabor de mel... Continuou a procurar aquele som divino. A sede que prometia beber-se a si mesma aumentava e quanto mais aumentava, mais ele a queria sentir. Estava sob um bosque de alecrins do mato, pisando as grimpas espessas que pareciam um tapete fofo da pele de um animal vivo, que aceitava o pisar como uma carícia...
Ester estava guardando a margem do riacho. Era a ninfa protetora das maravilhas daquela floresta encantada com os sabores que viriam quando se provasse da fonte que prometia afogar toda a sede de Pedro... Ele se aproximou mais, ela sorria. Ele teve medo de que ela, como toda guardiã, não permitisse que se apossasse de tal néctar essencial. Mas avançou, aquela sede era mais forte que todo poder de um Hércules. Frente a frente com a musa da fonte suprema, ele percebeu, muito mais que uma guardiã, ela era uma feiticeira. Sim, uma feiticeira, que ao contrário de querer afastá-lo de lá, o atraíra até a borda encharcada daquele riacho que corria sussurrando uma canção de encantamento. Ele não a temia, não temia mais nada, fosse encantamento, feitiçaria... a sede... a promessa latente da saciedade futura que se transformaria em mais sede... acercou-se dela... Esta, lhe deu passagem, e dando-lhe as mãos mostrou qual recanto da margem seria perfeita para que ele se debruçasse sobre o leito que também chiava melodiosamente o nome de Pedro... Sobre uma diminuta planície de musgos verdejantes ele se debruçou sobre o riacho... Quanto mais bebia, mais sede. De repente, Ester não estava mais ao seu lado, ela era o riacho que o atraía mais e mais. Pedro bebia... Todo o calor do mundo passou pelas entranhas e extremidades dele. Mais, ele queria mais, atirou-se totalmente no torvelinho de doçuras, parecia que se afogaria em tanto mel e calor... Porém, a sede foi se acabando... Ele apenas queria morrer sentindo-a, mas não morreu. Então, compreendeu que a promessa da sede era verdadeira. Depois de saciada, ela se tornava maior. Pedro adormeceu... Mas o barulho da sinfonia das águas serpenteando por entre a floresta continuava. Então repentinamente, cessou aquele barulho gorjeante do rio... ao seu lado, Ester, agora apenas a mulher da sua vida, ressonava nua... ao observá-la tão generosamente a presentear seus olhos incrédulos, logo uma certeza lhe veio: não demoraria e ele se perderia de novo naquela floresta sussurante onde começava a vida...

O primeiro passo

O primeiro passo

Faltou coragem

para caminhar

naquela estrada...

E era a dos meus sonhos.

Faltaram outras coisas

além da coragem.

Mas a vida insistiu em ficar.

Inconsciente, desejei a morte,

não valia a pena vida sem coragem,

norte até do mais simples sonhador.

A coragem veio

no primeiro passo

pela estrada...

E ela é de sonhos.

Divagação numa praia deserta:

O poeta de verdade é um navegador

que se põe à imensidão dos oceanos,

num barquinho solitário,

como um descobridor de mundos.

Seus remos são penas

que vão tingindo os mares di versos!


Divagação sob o manto da noite:

Poesia é a luz de uma estrela distante,

que chega aos olhos,

depois de viajar milhões de anos pela galáxia.

Se a estrela já morreu?

Só importa o conforto, inspiração e a alegria por onde tal luz passar.

É o eterno de mãos dadas à luz distante,

ou ao se abrir o livro a esperar na estante!



Maldição das queimadas

Sentei-me na varanda da fazenda

para ver a terra ser lavrada.

Nos rastros de um trator, a dor.

Vi renascer uma lembrança teimosa.


Os olhos vasculharam em vão,

o horizonte de terra vermelha;

não encontraram mais

a palmeira, a codorna e o sertão.


No rádio, não se ouve mais a canção,

nem o doce ponteado da viola

que exaltava o amor inocente

de um caboclo colhe pão.


Sinto saudades do pomar

de doces frutos, sombras e sonhos.

Lá crescia pendurado, sempre alto

o futuro lavrador do labutar.


Mais um tempo de espera

e as plantas vão cobrir a terra

até onde alcançar a vista.

É a soja que se revela.


Depois da colheita, ora, vender!

Não dá para contar na mão

todo o dinheiro que ela me trará.

Mas o coração não quer entender.


Os olhos não se contentam

com a visão da plantação

a sumir para além do horizonte.

Quero de volta o meu sertão!


Meus ouvidos estranham profundamente

o ronco barulhento dos tratores,

clamam insistentes, pelo retorno melancólico

do canto inebriante de um sabiá.


Meus pés, pela plantação,

não aceitam caminhar.

Não há o doce crepitar

do pisar na palhada seca.


Não vejo mais a fumaça

que anunciava pelo céu

a chegada do plantio

e o fim da erva daninha.


No meu coração arde uma fogueira,

quente como o sol de hoje em dia,

mas não me consome como a erva,

só os meus olhos inundam.


É a fogueira maldita da saudade,

de coisas simples que sinto falta,

assim como planta da água,

sinto falta da codorna, da palmeira, do sertão...


Os olhos insistem e não obtém o desejo.

A terra e o meu ideal encheram meus bolsos.

Em troca, paguei caro. Perdi a felicidade.

Nada restou, só chão a perder de vista.

Restou-me uma certeza, a do preço que paguei;
ao desfrutar da alegria de desbravar meu sertão,
comprei à aposentadoria e leguei aos filhos,
a tristeza, estampada num horizonte de verde rasteiro.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Meu primeiro conto, aos 22 anos. Obteve classificação em 2º Lugar no concurso de Contos da Fundacam em 1989. É o começo do Escritor.

O retorno ao fim da linha

Quem o visse o ônibus que serpenteava na rodovia balançando como se saltasse ondas, se já tivesse visto um barco antes, lembraria de um a singrar uma baía.
E do veículo balançando na estrada, era exatamente tal coisa que pensava um dos passageiros que está ansioso pela proximidade do fim da viagem. Um leve sorriso escapa de sua fisionomia quando ele percebe que seu destino está próximo.
A viagem tinha sido longa. Mas muito mais longo foi o tempo que ele levou para se decidir a faze-la...
Já fazia muito tempo perdera a paciência com alguns outros passageiros que o incomodavam durante o trajeto. Alguns deles tinham desembarcado, ele era, por sinal, um dos poucos que iriam até o fim da linha...
Enquanto a viagem não termina a vida prossegue sobre as rodas do veículo de transporte. Uma criança impaciente torna a perguntar à mãe quando vão chegar. Ela responde, também impaciente, que já estão muito próximos.
Um bêbado inquieto perturba outra senhora, que decide se mudar de poltrona ao notar que o ônibus está praticamente vazio. O sujeito indiscreto fica falando sozinho e não demora, pega no sono.
Alguns instantes depois, o veículo trafegava sobre o sítio urbano de Campo Mourão. Mais um tempo e o motorista manobra graciosamente e estaciona o ônibus numa das plataformas da estação rodoviária.
Todos os passageiros descem apressadamente com exceção de um deles. Ele parecia hesitar em desembarcar. O condutor, ao notar isto, gritou-lhe:
-- Ei companheiro, chegamos ao ponto final!
O rapaz deixou a impressão de estar amedrontado. Parecia que iria pedir socorro. Contudo, levantou-se repentinamente e seguiu para a porta.
Ao chegar na escada do veículo, olhou para o motorista.
-- Obrigado! -- Exclamou.
-- Não tem de quê! -- Respondeu o outro, perguntando em seguida – foi boa a viagem?
-- Acredito que sim, nós chegamos ao destino não é? -- Devolveu o outro.
Os dois permaneceram se olhando por uma fração de segundos que pareceu uma eternidade. Mas cada qual foi para o seu lado. O viajante caminhou pela rodoviária e o motorista seguiu com o ônibus para a garagem da empresa de transporte.
Bruno caminhou sem rumo pela plataforma. Depois de um certo tempo e cansado de ficar parado ali de uma forma que lhe pareceu estranha e que chamava à atenção das pessoas, resolveu cruzar a Rua Francisco Albuquerque, indo se sentar numa pracinha do outro lado. A praça que fica encostada ao muro do Colégio Santa Cruz.
Sentado num dos bancos, admirava as grandes árvores que a circundavam. Ele sempre gostara delas, porque eram nativas, não se lembrava mais a qual espécie pertenciam, forçando um pouco a memória, lembrou: eram copaíbas! Mas gostava delas de qualquer jeito, pois ao olhar para as mesmas, tinha a impressão de estar numa pequena floresta. Chamava-lhe à atenção também, o fato de serem todas de uma mesma espécie.
Depois de um certo tempo ali, se cansou e lembrou da praça do outro lado da rodoviária. Forçou um pouco a memória e conseguiu se lembrar o nome dela, era a Praça Getúlio Vargas. Era a maior praça da cidade. Levantou-se então e ia cruzando a rua naquela direção, quando deu por falta de alguma coisa. De imediato lembrou que esquecera sua pequena bagagem, que não passava de uma pequena mochila contendo apenas duas trocas de roupas, tendo em vista que ele planejara ficar muito pouco em Campo Mourão. Apanhou a mochila e tornou a sentar no banco da praça. Depois de refletir alguns instantes, levantou-se e cruzou a rua rapidamente. Passou pela rodoviária e em poucos segundos já estava na outra praça. Dirigiu-se de imediato para o coreto. Ao ver aquela construção em meio à praça, surpreendeu-se, pois acreditava que aquele tipo de coisa quase não existia mais nos fins da década de 80. Mas lá estava o pequeno coreto, dando mostras de estar praticamente abandonado.
Bruno lembrou que quando era menino, seu pai o trazia àquele lugar para ouvirem a banda municipal tocar nas tardes de domingo. Na verdade, ele se lembra de ter vindo ali apenas umas duas vezes, mas como ele sempre ouvia as pessoas falando da banda que tocava no coreto da praça, aquilo estava entranhado nele como se ele fosse um freqüentador assíduo dos concertos da banda. Por ele, viria mais vezes vê-la tocar, acontece, que logo este programa que era oferecido aos cidadãos mourãoenses deixou de existir, assim como muitas coisas naquela praça.
Olhou mais para a direita, lá estava o velho chafariz abandonado. De imediato, lembrou que ele fora uma atração e tanto para as crianças, lembrou dos peixes que nadavam no tanque que o cercava... Contudo, agora estava tudo seco. E aquela aridez parecia sugerir-lhe algo familiar, algo de si mesmo era como a sua história, que outrora fora tão feliz e cheia bons auspícios e que, repentinamente, num piscar de olhos cessou. Tentou esquecer de si mesmo olhando mais à frente na direção da catedral e notou que havia mais uma diferença; quando ele vivia na cidade, havia uma rua que cruzava na frente da igreja, era a rua Brasil, que fora interrompida e transformada em calçada. Ele não entendeu o porquê daquilo, mas tentou não se importar também.
As coisas sempre mudam, pensou. E pensando nisso, examinou com mais atenção a construção do coreto, que na verdade, não dava mostras de estar abandonada, apesar de ser nítida a sua idade e má conservação. Ele parecia estar ali como uma última sentinela a vigiar e resistir às mudanças do progresso. Num canto, se é que se pode dizer que uma construção redonda tem canto, ele viu um pequeno amontado de lixo, onde vislumbrou enojado um preservativo usado. Sempre se achava uma utilidade para as coisas que pareciam abandonadas (pensou ironicamentente) e aquela mureta devia dar muita segurança para quem não podia ou não queria pagar um motel. Mesmo porque, Campo Mourão só tinha um motel e ficava na saída para Maringá, se não lhe falhava a memória...
Encostou-se, depositou sua bagagem sobre a mureta e abriu o zíper da mochila novamente, tateou dentro dela e retirou cuidadosamente uma arma, uma pistola. Com rapidez, colocou-a na cintura. Em seguida, acariciou-a novamente e se lembrou, que uma vez, esteve prestes a usá-la e não teve coragem. Novamente aquela possibilidade o assaltava. Ele estremeceu ao sentir tudo aquilo de novo. E um filme se descortinou novamente à sua frente...
Lembrou-se do dia em que conhecera a sua futura mulher. Aconteceu num dia festivo no pátio da única faculdade de Campo Mourão, onde jovens se davam a cumprimentar os amigos alegremente pela conquista de estarem entrando na universidade. A primeira vez que viu Alice, ela estava trocando beijos de cumprimento com alguns colegas. Não demorou, e logo eram os dois que repetiam este ritual. E Bruno ficou muito impressionado por aquela garota.
Quatro anos depois um outro ritual de beijos e cumprimentos se repetia na igreja da Vila Urupês. Bruno estava duplamente feliz, pois casara no dia do seu vigésimo terceiro aniversário. Entretanto, naquela época ele já se revelava uma pessoa muito ciumenta apesar de tal fato não o preocupar. E por outro lado, Alice nunca deu a ele qualquer motivo que o levasse a ter este sentimento acentuado. Mas ele, inexplicavelmente em meio à sua felicidade, estava sempre em guarda, como se à qualquer momento algo fosse surgir para roubar-lhe a felicidade. Muitas vezes, chegou a admitir intimamente que havia algo de errado consigo mesmo, que precisava procurar ajuda de alguém, mas nunca teve coragem de se abrir com ninguém e continuou vivendo como se nada acontecesse.
Depois de quatro anos de casamento, quando ele estava prestes a desistir de pensar tais bobagens, as coisas começaram a se modificar. Começou a notar uma mudança no comportamento da mulher. Tudo aconteceu muito rápido, em apenas um mês as coisas se precipitaram num abismo intransponível... e ambos foram atirados nas suas profundezas... ou teria sido ele a saltar, arrastando-a? Essa pergunta ele não ousava se fazer, apesar de a mesma sempre sussurrar-lhe...
De fato, Alice começou a levantar furtivamente da cama durante a noite para dar telefonemas às escondidas. Na primeira vez, Bruno não se importou, achando que era problema de mulher e que ela devia estar falando com a mãe. Contudo, isto foi se repetindo e ele passou a vigiá-la. Depois vieram as viagens para Maringá...
Ele estava acostumado com uma ou duas viagens a cada seis meses mais ou menos, pois ela tinha naquela cidade uma tia de quem gostava muito. Mas naqueles últimos dias, ela fez pelo menos umas três viagens. Bruno tinha certeza que havia algo de errado e que tinha a ver com a “cidade canção”. Numa noite, ela lhe disse que iria novamente para lá na manhã seguinte. Ele concordou sem pestanejar. Mas tinha planos de segui-la.
Na manhã seguinte, levou-a ao amanhecer até a estação rodoviária. E ficou com ela até que a mesma entrasse no ônibus. Ela estranhou, pois ele não fazia isso a muito tempo.
Assim que o veículo partiu, ele foi atrás. Muitas vezes teve que diminuir a velocidade do automóvel para não ultrapassar o ônibus.
Mais ou menos uma hora e meia depois chegavam à Maringá. Bruno aproximou-se cuidadosamente da rodoviária, tomando o cuidado de estacionar o automóvel do lado oposto ao da plataforma de desembarque. Desceu e se dirigiu para a rodoviária ofegante, excitadíssimo. Escondendo-se cuidadosamente, viu quando o veículo estacionou na plataforma e viu quando a mulher desceu e viu também quando um jovem cabeludo, que trajava roupas de couro abraçou-a e beijou-a no rosto carinhosamente. Estava com os nervos em frangalhos, as pernas não conseguia controlar. Mas recuperou-se quando viu que os dois tomavam um táxi. Assim que eles saíram, foi ao encalço dos dois, tomando outro táxi e seguindo-os.
O casal chegou a uma casa no Jardim Alvorada. Bruno viu quando os dois desceram e de braços dados caminharam para dentro. O táxi estacionou e ali permaneceu por um longo tempo, mas Bruno não viu nada, pois a casa estava completamente fechada. Sem saber o que fazer, ele dispensou o taxista e permaneceu ali, aguardando e pensando em cometer uma loucura quando ela saísse. Mas as horas se passaram e nada de Alice sair. Ele tomou então uma decisão. Foi até um telefone público, chamou um táxi e partiu. Foi até uma loja de armas e comprou a pistola que acariciava enquanto rememorava toda essa história. Quando ela chegasse em casa ele a mataria, pensou.
Entretanto, enquanto viajava para casa, naqueles poucos noventa quilômetros que separam as duas cidades, ele descobriu que jamais teria coragem para fazer tal coisa, mesmo sentindo o ódio que estava sentindo. Mas aquilo não ficaria como estava, ele daria um basta em tudo...
E naquele mesmo dia arrumou suas roupas e desapareceu.
Vivia no Paraguai na casa de um tio na cidade de Naranjal, já para mais de quatro anos. No Brasil, ninguém ouvia falar mais dele, com exceção dos pais, naturalmente, a quem disse apenas que estava vivo e bem, nada além disso.
Contudo, um belo dia, ao vir até Foz do Iguaçu para buscar uns documentos para o tio, resolveu visitar as cataratas, coisa que era seu desejo à muito tempo.
Era um dia que o local estava repleto de turistas e Bruno não pode evitar um encontro indesejado com um primo de Alice que o reconheceu e o abordou. Foi uma conversa muito difícil, mas no final, o primo da moça deu-lhe um telefone, exigindo dele, que o mesmo ligasse para ela, a fim de que se esclarecessem muitas coisas.
Bruno achou que realmente poderia ser a hora de se manifestar e jogar na cara dela tudo o que sabia ou, terminar o que deveria ter feito a alguns anos atrás. Ligou no outro dia e marcaram aquele encontro, pelo qual ele agora aguardava.
De repente, ele sentiu uma presença conhecida. Levantou os olhos, lá estava Alice, exatamente como ele a deixara, não mudara nada, exceto pelo ar de tristeza e abatimento. Seu coração disparou, não conseguia nem falar. Mas ela falou:
-- Então é verdade, você finalmente apareceu!
-- É! -- Conseguiu dizer.
-- Acho melhor nós sairmos daqui, esse não é o melhor lugar para uma conversa. – Disse ela.
Ele concordou e os dois saíram rumo a Avenida Capitão Índio Bandeira. Encontraram uma lanchonete aberta e entraram. Mal sentaram, ela cobrou:
-- Você me deve muita coisa Bruno, muitas explicações!
-- Eu? Olha, nem sei por que estou aqui, pois eu fui embora exatamente para não ter que ouvir ou dar explicações, eu tinha medo de que elas me machucassem muito mais do que a dor que eu sentia ao ser traído por você. – Despejou ele.
-- Do que você está falando homem?
-- Ora vejam só, não consigo acreditar! Que tal refrescarmos sua memória, me responda o que você foi fazer em Maringá no Jardim Alvorada no dia em que eu fui embora?
-- É simples, fui até a casa de meu primo acertar umas coisas que nós tínhamos combinado por telefone anteriormente. E qual é o problema, eu sempre fui para Maringá e você nunca se importou!
-- Talvez tenha sido esse meu problema, fazer de conta que não me importava, te deixei muito solta, confiando em você. – Depois olhou-a muito irritado e completou – mas que história de primo é essa? Pelo que sei os filhos da sua tia que morava em Maringá eram crianças naquela época e moravam no centro, não naquele bairro.
-- Sua memória está muito curta Bruno, não se lembrou que eu sempre lhe falava de um primo que tocava numa banda, que você não chegou a conhecer porque ele viajava muito para fazer shows pelo Brasil, pois é, eu fui ver este primo aquele dia. E sabe para que?
-- Não, não faço a mínima idéia. – respondeu ele, já perturbado.
-- Naquele dia, eu fui combinar com ele os últimos detalhes para a festa do nosso aniversário de casamento, que também por sinal era seu aniversário. Ele viria tocar com sua banda, só isso... e com os olhos entre as mãos, cheios de lágrimas, soluçou – e você, o que tem a me dizer?
Como não houve resposta, após alguns segundos ela abriu os olhos e olhou para ele, que estava deitado na mesa com as mãos na cabeça, como se tivesse uma dor horrível. Era terrível dor de cabeça, dessas que não se curam jamais, dessas que só a morte o libertaria...

Primeira poesia do blogg

Traços em passos

A Linha, os traços, os passos
faço traços na Linha
com incertos passos,
alguns tropicaços, muitos perpassos.
Passos, são traços.
Sugerem a desejável Linha!
A Linha, essa o é, sem passos...
passo a passo me equilibram
o passar urgente pela Linha
compulsivo errador, hei de traçar...
traçar passos errantes
passar desejáveis traços retos
Marcas da Linha ficarão,
E a Linha passará
quer com traços ou passos
desta página,
para outra melhor.