Divagação numa praia deserta:
O poeta de verdade é um navegador
que se põe à imensidão dos oceanos,
num barquinho solitário,
como um descobridor de mundos.
Seus remos são penas
que vão tingindo os mares di versos!
Divagação sob o manto da noite:
Poesia é a luz de uma estrela distante,
que chega aos olhos,
depois de viajar milhões de anos pela galáxia.
Se a estrela já morreu?
Só importa o conforto, inspiração e a alegria por onde tal luz passar.
É o eterno de mãos dadas à luz distante,
ou ao se abrir o livro a esperar na estante!
Maldição das queimadas
Sentei-me na varanda da fazenda
para ver a terra ser lavrada.
Nos rastros de um trator, a dor.
Vi renascer uma lembrança teimosa.
Os olhos vasculharam em vão,
o horizonte de terra vermelha;
não encontraram mais
a palmeira, a codorna e o sertão.
No rádio, não se ouve mais a canção,
nem o doce ponteado da viola
que exaltava o amor inocente
de um caboclo colhe pão.
Sinto saudades do pomar
de doces frutos, sombras e sonhos.
Lá crescia pendurado, sempre alto
o futuro lavrador do labutar.
Mais um tempo de espera
e as plantas vão cobrir a terra
até onde alcançar a vista.
É a soja que se revela.
Depois da colheita, ora, vender!
Não dá para contar na mão
todo o dinheiro que ela me trará.
Mas o coração não quer entender.
Os olhos não se contentam
com a visão da plantação
a sumir para além do horizonte.
Quero de volta o meu sertão!
Meus ouvidos estranham profundamente
o ronco barulhento dos tratores,
clamam insistentes, pelo retorno melancólico
do canto inebriante de um sabiá.
Meus pés, pela plantação,
não aceitam caminhar.
Não há o doce crepitar
do pisar na palhada seca.
Não vejo mais a fumaça
que anunciava pelo céu
a chegada do plantio
e o fim da erva daninha.
No meu coração arde uma fogueira,
quente como o sol de hoje em dia,
mas não me consome como a erva,
só os meus olhos inundam.
É a fogueira maldita da saudade,
de coisas simples que sinto falta,
assim como planta da água,
sinto falta da codorna, da palmeira, do sertão...
Os olhos insistem e não obtém o desejo.
A terra e o meu ideal encheram meus bolsos.
Em troca, paguei caro. Perdi a felicidade.
Nada restou, só chão a perder de vista.
Restou-me uma certeza, a do preço que paguei;
ao desfrutar da alegria de desbravar meu sertão,
comprei à aposentadoria e leguei aos filhos,
a tristeza, estampada num horizonte de verde rasteiro.
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