sexta-feira, 18 de abril de 2008

Divagação numa praia deserta:

O poeta de verdade é um navegador

que se põe à imensidão dos oceanos,

num barquinho solitário,

como um descobridor de mundos.

Seus remos são penas

que vão tingindo os mares di versos!


Divagação sob o manto da noite:

Poesia é a luz de uma estrela distante,

que chega aos olhos,

depois de viajar milhões de anos pela galáxia.

Se a estrela já morreu?

Só importa o conforto, inspiração e a alegria por onde tal luz passar.

É o eterno de mãos dadas à luz distante,

ou ao se abrir o livro a esperar na estante!



Maldição das queimadas

Sentei-me na varanda da fazenda

para ver a terra ser lavrada.

Nos rastros de um trator, a dor.

Vi renascer uma lembrança teimosa.


Os olhos vasculharam em vão,

o horizonte de terra vermelha;

não encontraram mais

a palmeira, a codorna e o sertão.


No rádio, não se ouve mais a canção,

nem o doce ponteado da viola

que exaltava o amor inocente

de um caboclo colhe pão.


Sinto saudades do pomar

de doces frutos, sombras e sonhos.

Lá crescia pendurado, sempre alto

o futuro lavrador do labutar.


Mais um tempo de espera

e as plantas vão cobrir a terra

até onde alcançar a vista.

É a soja que se revela.


Depois da colheita, ora, vender!

Não dá para contar na mão

todo o dinheiro que ela me trará.

Mas o coração não quer entender.


Os olhos não se contentam

com a visão da plantação

a sumir para além do horizonte.

Quero de volta o meu sertão!


Meus ouvidos estranham profundamente

o ronco barulhento dos tratores,

clamam insistentes, pelo retorno melancólico

do canto inebriante de um sabiá.


Meus pés, pela plantação,

não aceitam caminhar.

Não há o doce crepitar

do pisar na palhada seca.


Não vejo mais a fumaça

que anunciava pelo céu

a chegada do plantio

e o fim da erva daninha.


No meu coração arde uma fogueira,

quente como o sol de hoje em dia,

mas não me consome como a erva,

só os meus olhos inundam.


É a fogueira maldita da saudade,

de coisas simples que sinto falta,

assim como planta da água,

sinto falta da codorna, da palmeira, do sertão...


Os olhos insistem e não obtém o desejo.

A terra e o meu ideal encheram meus bolsos.

Em troca, paguei caro. Perdi a felicidade.

Nada restou, só chão a perder de vista.

Restou-me uma certeza, a do preço que paguei;
ao desfrutar da alegria de desbravar meu sertão,
comprei à aposentadoria e leguei aos filhos,
a tristeza, estampada num horizonte de verde rasteiro.

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